Para engravidar a terra e a consciência

Postado em nov 4, 2014 in Espetáculos em Cartaz, Notícias
Para engravidar a terra e a consciência
Estreou neste final de semana “Ombela”, o mais novo espetáculo do Grupo O Poste Soluções Luminosas. Com texto do angolano Manuel Rui e direção de Samuel Santos, a peça traz as atrizes Agrinez Melo e Naná Sodré numa performance que consumiu cerca de oito meses de preparação, entre pesquisas, intercâmbio cultural e ensaios. A obra foi contemplada com o Prêmio de Teatro Myriam Muniz, da Fundação Nacional de Arte (Funarte) e traz a água como fio condutor de várias nuances femininas presentes na ciclo da vida.

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Em cartaz no Espaço O Poste, localizado à Rua da Aurora, onde o Recife beija o Capibaribe, “Ombela” é apresentado sob uma direção de arte que valoriza o lado lúdico e orgânico da relação humana com os elementos que o cercam. Instrumentos e símbolos africanos dividem espaço com cacimbas, fontes e um pequeno fosso luminoso, que demarca o território mágico, por onde desfilam os elementos e as entidades que compõem a aquarela da vida.

As personagens que desfilam pelo texto de Manuel Rui são diferentes entre si, mas se fundem numa só: a vida, elemento fluido e maleável, tal como a água, símbolo de fertilidade, também presente na essência feminina. Cada uma possui um ciclo, trazido por cantigas e narrativas que remetem à contação de história, à sabedoria passada pela oralidade, ao contato mais orgânico com as nossas raízes, tão esquecidas pela velocidade de um cotidiano, cada vez mais urbano, tecnológico e ocidentalizado. Eis aí um dos pontos fortes de “Ombela”: o espectador é naturalmente inserido no mesmo estado catártico de entrega às cantigas e histórias de sua mais tenra idade.

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E é por meio dessa viagem de elementos interligados que o público é apresentado à finitude das coisas, à necessidade de enxergar a matriz da vida em diversos símbolos e manifestações naturais. “Ombela” resgata o lado mais orgânico do homem, embalado pelo figurino elaborado pela atriz Agrinez Melo e pela direção musical de Isaar França, com canções compostas especialmente para a obra, cantadas e tocadas e ao vivo pelo elenco.

De acordo com Naná Sodré, o processo de entrega foi intenso e necessário. “A peça possui falas em português e em Umbundo, uma das línguas bantas mais faladas de Angola. Mas pelo contexto que tratamos, pela junção das sensações às quais remetemos, pela sonoridade, a junção das duas línguas só enriquece o universo que tentamos mostrar”, conta a atriz, que junto a Samuel Santos e Agrinez Melo, recebeu consultoria com especialistas nativos, para poder entender e sentir a mensagem que o espetáculo se propõe a passar. “Foi um exercício e tanto, pois dessa forma, não nos limitamos a somente emitir as palavras. Precisamos encontrar a verdade nelas, senti-las, vivê-las”, conclui Sodré.

0045“Ombela” é mágico, mas ao mesmo tempo pungente. Em vários momentos, as atrizes se vestem de diferentes cores e vozes para conversar com o público, ora brincando, ora lembrando que ele também é responsável pela preservação do ciclo pelo qual ele foi gerado. A água, na figura da essência feminina, que simboliza a vida é o grande trunfo desta obra, que merece ser vista e debatida em tempos de um caminho sem volta na fruição dos elementos que mantém a vida caminhando.

Texto, Arte Gráfica e Fotografia de Juliano da Hora

 

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