O espelho vai às ruas

Postado em out 22, 2014 in Festivais, Performance
O espelho vai às ruas
Performance da atriz Roberta Nascimento parou as ruas do centro de Caruaru, refletindo questionamentos e reflexões sobre a imagem feminina e o controle social através do consumo e da cultura de massa.

Partiu da estação ferroviávia de Caruaru, às 15h da quinta-feira, 16 de outubro, um turbilhão de perguntas em forma de mulher. Do alto de saltos finíssimos, se equilibravam as pressões femininas do dia-a-dia, na forma de uma cruz onde repousavam símbolos e padrões impostos à exaustão, 24 horas por dia. Encarnando o embate do senso crítico frente ao comum, absorvido por osmose midiática, está a atriz baiana Roberta Nascimento, de  28 anos. Em seu encalço, uma multidão de transeuntes, lojistas e motoristas que não ficaram imunes à esfinge voluptuosa e irreverente que não precisou de palavras para gritar de forma contundente que as mulheres ainda têm um duro caminho rumo à afirmação plena de sua imagem e seus anseios.

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A performance itinerante fez parte da programação do 24º FETEAG, o Festival de Teatro do Agreste, idealizado por Fabio Pascoal e Chico Neto, originários do TEA, o Teatro Experimental de Arte, fundado em Caruaru em 1962 pelo casal Argemiro Pascoal e Arary Marrocos. A edição deste ano foi permeada pelo tema “Ao olhar delas – A Poética Feminina em Cena”, que casou perfeitamente com a proposta da jovem atriz baiana. “A idéia é mostrar que a mulher carrega uma cruz pesadíssima todos os dias, muitas vezes sem se dar conta disso. A arte é um canal ótimo para tratar desse tema, por que ela quebra a rotina, te tira do eixo e faz você se perguntar a respeito do que está vendo e do que isso tem a ver com a sua vida”, diz a artista.

A Avenida Rio Branco, nas imediações do Grande Hotel, foi palco do cortejo artístico e crítico, que gerou uma grande repercussão nas redes sociais. Funcionários de lojas e consumidores seguiam até a calçada para saber do que se tratava, conforme viam uma multidão que seguia coesa e não parava de crescer. “Sacrilégio”, “Heresia”, “Absurdo”, diziam alguns, enquanto outros perguntavam se a atriz estava realizando alguma promessa ou se era alguma cantora gravando um videoclipe de tecnobrega.

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A caminhada causou ainda mais impacto com a presença dos alunos da oficina de fotografia cênica promovida pelo festival, o que agregou um caráter ainda mais ácido à mensagem transmitida pela ação artística. “Mais do que nunca, vivemos na era da imagem, e ter uma pessoa caminhando rodeada de fotógrafos e formando multidão é muito simbólico. Estamos assistindo à profusão de anseios e aspirações rasas, pautadas por um glamour que não existe, pelo qual se paga muito caro, com a nossa integridade física e emocional”, afirma Roberta Nascimento.

A ação contou com paradas estratégicas, quando Roberta pedia cigarro e ostentava uma taça de vinho, que rapidamente entornava, em meio a comentários e perguntas que ela respondia somente com o olhar. O que acontecia em seguida era praticamente um soco no estômago do público: tocando na ferida da bulimia, um mal que se alimenta dos padrões de beleza disseminados pela mídia, a atriz devolvia o que acabava de consumir, surpreendendo a quem passasse por perto.

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O passeio continuou pela Rua Dácio Espósito de Lima, em direção à Prefeitura de Caruaru. No caminho, uma pausa na calçada de uma barbearia, reduto tradicionalmente masculino, onde a atriz pôs à prova a condição feminina de sexo frágil. Ali, clientes e funcionários se dividiam entre cuidados e conselhos que remetem a um olhar tradicional sobre a (não) autonomia da mulher:

“- Você está bem, minha filha?”
“- Não quer um copo d’água, uma cervejinha, não?”
” – Uma moça tão bonita, fazendo isso…”
“- O quê ela é?”

Para a atriz, a situação está tão arraigada na sociedade que poucos conseguem ultrapassar a barreira de enxergá-la além da objetificação sexual. Segundo ela, “é comum ouvir conselhos do tipo ‘moças não podem sair assim’, como também gracinhas, cantadas de mal gosto e ofensas por parte de outras mulheres, pelo meu visual.”

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A peregrinação seguiu pelo centro comercial em direção à Praça do Marco Zero. O trajeto no coração das lojas e calçadas impulsionou o burburinho, que àquela altura dominava as postagens nas redes sociais dos moradores do município. Era possível ver pessoas munidas de aparelhos celulares procurando a entidade que aterrissou naquela tarde e se espalhou como um vírus, apertando botões no imaginário alheio. Muitos posavam para selfies, símbolo contumaz da relação humana com sua própria imagem, nesta segunda década do século 21.

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“Eu precisava vir, saber que ela existia e que estava aqui”, afirmou a estudante Isabel Correa, 17 anos, que interrompeu a tarde de estudos com os amigos para comprovar os boatos e imagens que pipocavam nas redes numa velocidade incontrolável. De repente, expedientes nos escritórios e poltronas nos salões e consultórios foram tomados pela moça que veio de lugar nenhum, dirigindo-se a Deus sabe onde, carregando uma pesada cruz, com chapinha, lingerie, secadores, sapatos e todos os produtos imagináveis relacionados às mulheres.

“- Quem é essa, aí?”
“- Deus vai te castigar!”
” – Ah, como eu queria ser essa cruz!”
“- Larga essa cruz que eu te carrego, querida!”
“- Tá amarrado em nome de Jesus!”

As pérolas eram as mais variadas possíveis. Houve até quem colocasse motivações eleitorais, enxergando uma possível promessa a ser paga pela corrida presidencial. A dona de casa Maria José Barbosa, 46 anos, estava no centro com sua filha caçula para uma consulta médica, quando se deparou com a cena. Observou Roberta por alguns minutos e perguntou aos fotógrafos que acompanhavam o cortejo: “Isso é um protesto?” Ao ser questionada sobre o que ela achava que era aquilo, respondeu: “Acho que é, sim. Ela tá carregando um monte de coisa que eu não posso deixar de ter pro dia-a-dia. É difícil ser mulher, moço”, concluiu.

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A performance atingiu o seu auge na Praça do Marco Zero, onde Roberta Nascimento entregou-se à cruz que carregava, permanecendo inerte, à mercê dos olhares da população e das imagens projetadas na Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Quem ali passava, pôde identificar anúncios de grifes famosas, poses de cantoras da música pop, merchandising de produtos de beleza, além de termos e expressões ouvidas pelas mulheres no seu dia-a-dia.

A proposta foi de não determinar a duração da performance, visto que a artista teve a intenção de atingir o máximo de pessoas possíveis. Roberta Nascimento deu o seu recado, e permaneceu crucificada em frente ao cartão postal do centro de Caruaru até que a última pessoa deixasse a praça com uma bagagem a mais no retorno para casa e para a vida.

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“Estética da Via Crúcis” foi aprovado pelo Prêmio Funarte Artes de Rua 2013, e já percorreu os municípios de Vitória da Conquista, Cachoeira, Porto Seguro, Salvador (BA) e teve toda a sua romaria filmada para a montagem de um futuro documentário com todas as nuances desta experiência, pela produtora Talitha Andrade.

Para novas datas da romaria artística, visite o blog oficial: esteticadaviacrucisemromaria.blogspot.com.br ou a fanpage oficial da ação no Facebook: Estética da Via Crucis em Romaria

Texto e Fotografia de Juliano da Hora

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